Saudade marca ausência da 30° edição do Festival de Inverno de Garanhuns

Nesta matéria, a frequentadora assídua do Festival Sandra Ramos faz um passeio relembrando a Cidade das Flores durante o FIG

O beija-flor, símbolo do Festival de Inverno, cochila com a falta da festa esse ano. Foto: Divulgação/Lucas Santos.

Nos últimos 29 anos, a média de 20° C é o principal motivo de Garanhuns se reunir para festejar durante dez dias no mês de julho. Nos 21 polos de música, literatura, cultura popular e exposições, o Festival de Inverno de Garanhuns atrai cerca de 600 mil pessoas, de acordo com a estimativa da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). Em razão da pandemia da COVID-19, que se alastra de forma nociva no país, a 30° edição do Festival entrou no rol de eventos cancelados no Estado de Pernambuco.Esse novo cenário que, há exatamente um ano atrás seria marcado por  novos cheiros e sabores experimentados pelos turistas e moradores da Cidade das Flores durante o Festival,  dá lugar ao isolamento e a lembrança.

“Me emociono com cada espetáculo que participo durante o Festival de Inverno de Garanhuns. Todos os lugares me deixam felizes. A festa em si sempre me deixa marcas. Quando termino, saio cheia de energia positiva’’, esse é o principal conjunto de sentimentos que a garanhuense amante da fotografia Sandra Ramos, descreve quando se despede do maior evento cultural de sua cidade. Em 1991, o festival iniciava e, com ele, o vínculo entre Sandra e as noites frias que envolviam os dias de festa. Participante de todas as 29 edições, a fotógrafa atravessa a cidade, nos mostrando os locais que mais sente falta durante o FIG.

Sandra nos convida a imaginar e revisitar o teatro Alfredo Leite Cavalcanti, principal ida da fotógrafa durante o festival, se torna o ponto mais aconchegante e nostálgico. “Um lugar muito marcante é a fila da bilheteria do teatro. Eles distribuem as entradas de manhã, então, todos vão muito cedo para a fila. Você conhece pessoas de todos os lugares e faz novas amizades. Além das pessoas que eu conheço há anos e sempre nos encontramos por lá”, disse. 

Ela também lista os palcos multiculturais presente na festa: o Pop, o da Cultura Popular e o Mestre Dominguinhos,  onde  passaram nomes como Letrux, Johnny Hooker e Priscila Senna; a Praça da Palavra, com os lançamentos literários; oficinas, espetáculos de dança e circo no Parque Euclides Dourado; os bolos e cafés da Estação Doçura; e os afters ao término de cada noite. Para o professor de História Julio César, o festival nos convida a ter contato com diversas manifestações artísticas, um verdadeiro símbolo de inclusão e novas experiências. 

Show do cantor Thiago Pethit no Palco Pop em 2013. Foto: Acervo Pessoal/Sandra Ramos.

Além disso, o festival contribui para um grande crescimento econômico da cidade. “O evento traz consigo uma importante contribuição, tanto do ponto de vista econômico, como na exposição do trabalho de várias pessoas que vivem da arte em Pernambuco’’, diz o professor. A Secretária Municipal de Desenvolvimento Econômico (SDE) divulgou uma pesquisa sobre a edição de 2019 que consta a boa movimentação na cidade em comparação a 2018. A Casa da Arte, museu aberto às exposições e feirinhas, obteve um aumento de 100%, enquanto a rede hoteleira da cidade faturou 83% a mais em relação a 2018, seguida de 60% na rede alimentícia

Para conseguir acompanhar todos os espetáculos desejados e conhecer novos artistas, Sandra Ramos acorda cedo e segue à  risca uma planilha de horários. A ideia de organizar o calendário do festival surge da sua vontade de conhecer novas atrações, para além das que são realizadas na Praça Mestre Dominguinhos, considerada o ponto principal da festa. “Nos 3 ou 4 primeiros anos eu só me ligava em ir para os shows da Praça Mestre Dominguinhos, como até hoje, as pessoas acham que o festival se resume a esses shows […] Atualmente eu faço uma planilha e procuro ver shows e coisas que  ainda não vi nas edições passadas”.  

Nessa sua caminhada por palcos e praças, Sandra chegou a conhecer grandes artistas nos quais admira. O cantor Ney Matogrosso, em 2013, passava sua turnê “Atento aos sinais” por Garanhuns. Uma das suas maiores emoções,  foi quando Sandra conheceu Ney no FIG, e pôde lhe dar um grande abraço. “Tenho um carinho enorme por ele, por ser um dos artistas mais completos no meio musical. Me senti maravilhada quando o abracei, tirei fotos e pedi um autógrafo”, comenta.

Sandra também coleciona encontros com o cantor e intérprete Lenine, o Maestro João Carlos Martins, o escritor Ariano Suassuna e as cantoras Elba Ramalho, Alcione e Ângela Maria. Sobre as duas últimas, ela comenta “me marcou muito conhecer Alcione e Ângela Maria. Eu cresci escutando as músicas delas porque meu pai amava. Poder abraçá-las foi como se meu pai estivesse comigo”.

Para não esquecer as lembranças de inúmeras noites vividas nos 29 anos de Festival, Sandra Ramos coleciona fotos e folhetos de todas as edições. “Hoje estamos sob uma pressão de evitar aglomerações e não poder participar de grandes eventos culturais presenciais, então suscitar memórias como essas, nos traz uma importante reflexão sobre o papel das artes nas nossas vidas” menciona Julio César.

O professor ainda cita que para Nietzsche, “temos a arte para não morrer de verdade”, e continua “me parece muito verídica essa afirmação, sobretudo quando pensamos nos números de mortes diárias, na inércia do Governo Federal em relação ao COVID-19 e o próprio distanciamento que vem ocasionando problemas psicológicos’’. O beija-flor descansa este ano, mas se prepara para as próximas edições que virão.

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