Sobre o parecer ser

Filosofia e contemporaneidade no Café Colombo. Uma reflexão sobre verdades absolutas e o medo de não ser que os Aristóteles das redes sociais possuem. Exclusivo no Café Colombo.

A alma que não tem objetivo estabelecido se perde,

pois, como se diz, estar em toda parte é não estar em lugar nenhum.

Michel de Montaigne

São Jerônimo escrevendo – Caravaggio. Foto: Reprodução

Ninguém é. E, ao mesmo tempo, todos são. Como, em um mundo com uma infinidade de opções, acontecimentos, informações, todo mundo sabe tanto sobre tantas coisas? Parece que vivemos em um universo habitado por milhares de Aristóteles. Uma vez me disseram que os sábios eram raros; mas, nos dias de hoje, desconfio dessa afirmação. 

“Você está errado. Sim. Você está errado!” Sentenciam eles, juízes da verdade. Detentores da razão. Como eu poderia discordar? Tanta segurança. Tanta certeza. Devo ser um asno, porque a exemplo de Sócrates, apenas sinto que nada sei quando estou frente a tamanha pluralidade de assuntos. E olha que leio. Leio. Leio. Num ou noutro tema até posso ter algum domínio, falar com certa propriedade. Porém, quanto mais assuntos escavo, quanto mais informações absorvo, mais eu me deparo com a incerteza.

Tantas perspectivas. Tantas nuances. Como fazem esses sábios do nosso tempo para possuírem esse monte de certezas? Nossos Aristóteles. Os gênios das redes sociais. Jamais conheceram uma aporia. Tão sabedores. Como encontram fácil a verdade. Talvez precisem só de um vídeo no YouTube. Ou apenas visualizar alguns stories. E pronto. Eureka!

Como eu queria ser sábio assim! Mas será que eles realmente são? Quando Górgias fala que “nada é”, dá até calafrios. É assustador. Será que essa convicção tão certeira, tão exata, não é medo de não ser? Mas eles parecem ser. Formam comunidades inteiras parecendo ser. Derrote o inimigo! Destrua-o com essas palavras tão ansiosas e raivosas expelidas ao agredir seu teclado! Ah, geração tão sábia. E eles ainda dançam…

Mas a partir de quais princípios esses sábios dançarinos chegam ao encontro de verdades tão absolutas? 

Um filósofo da rua – daqueles que nunca são lembrados pela história – certa vez me falou que todos esses “sábios”, detentores da certeza ideológica, se veem lutando em favor da limpeza e do bem, cuja única forma de purificação seria através de sua causa. Todo ímpeto que possuem é destinado a combater os nefastos, disse-me ele. 

“Mas sabe quem é mesmo nefasto? Aquele que imagina que é puro, esse sim é nefasto! Eu sou puro, eu sou nefasto!”

Será? Não sei. Porém, às vezes tendo a concordar com ele. Após morderem aquela maldita maçã, os humanos nunca mais foram os mesmos; orgulho e vaidade se tornaram medida de tudo.

E quanto a tu, Prometeu, o que tinha naquele fogo? Será que era a extrema sabedoria, a verdade que a minha geração julga ter encontrado? Você deveria cuidar melhor do seu irmão, Prometeu. Mas talvez seja ele, Epimeteu, o rei da nossa era. A era dos tolos. Condenados a viver sem objetivos. Submetidos ao vazio da falta de valores concretos. Movidos por ressentimento. Obrigados a  vestir máscaras de bondade. Fadados a criar ídolos de plástico.

Mas, o que eu sei? Nada. Vivo correndo de patinete atrás do vento, assim como todos os outros. Pior. Eles conhecem a verdade. Já eu, só conheço a dúvida.

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