Sócrates e uma reflexão sobre momentos extremos

Uma reflexão através da morte de Sócrates sobre encontrar ordem diante do abismo da existência

Sócrates e uma reflexão sobre a pandemia.

A Morte de Sócrates -Jacques-Louis David. Foto: Reprodução.

Momentos antes de ter que ingerir cicuta após ser condenado à morte, Sócrates se livra de suas correntes e chega a uma reflexão “Me fazia mal e agora me dá prazer. Que estranho! O prazer e a dor estão tão próximos um do outro, que quando o homem deseja um, deve sofrer do outro”

Sócrates tinha postura de indagar a todos que acreditavam saber o que significava virtudes como “justiça, belo, bem”. Seu intuito era provar que os ditos sábios nada sabiam, assim como ele. Essa conduta irritava a aristocracia Ateniense, que deu um jeito de se livrar desse “pentelho” acusando-o pelo pretexto de “corromper a juventude e profanar os deuses”.

Sua condenação causa um certo mal-estar, pois fica claro que não é justa. Assim, os discípulos dele conseguem a chance de tirá-lo do destino da morte com a condição de sair de Atenas e não mais voltar. No entanto, Sócrates nega. 

Por que alguém negaria a possibilidade de se manter vivo? Não seria a vida o maior princípio moral? Sócrates abdica da vida em favor da ordem da cidade. De sua virtude. O maior princípio moral para Sócrates é ser um homem virtuoso, respeitar as leis da pólis, mesmo que estas estejam equivocadas. Sócrates deixou-se morrer por seus princípios.

Ora, mas o que podemos tirar disso? 

Sócrates

Cena do filme Sócrates (1971), de Roberto Rossellini. Foto: Reprodução.

Vivemos em um mundo acelerado. Constantemente bombardeados de informações, mensagens, trabalhos e coisas a conquistar. Estar sempre em movimento tornou-se norma. Devemos acordar mais cedo, trabalhar mais, reduzir nosso horário de almoço, talvez almoçar fazendo outra atividade. Mas também temos que comer bem. Fazer exercícios. Porque se não a máquina biológica irá parar, antes mesmo de você conseguir alcançar o sucesso, tornando-se assim em fracasso.

Entretanto, onde fica o espaço para a alma? Não no sentido religioso, mas no sentido singular do indivíduo. Alcançar objetivos, comer bem, manter o corpo em forma, é importante. No entanto, os seres humanos também necessitam de um sistema de valores que vai além do material e fisiológico. Quando a alma é deixada de lado, somos acometidos pelo horror da existência, o niilismo toma conta trazendo o desespero. Talvez em alguns mais cedo, talvez em outros no fim da vida. 

Imersos em nossa modernidade líquida, na qual os valores escorrem entre nossos dedos, nos afastamos de nossa cultura, de nossa tradição, seja com a religião ou em algo que sobreponha o mero materialismo diário.

Vivendo sempre em busca de um fim material, tudo se torna meio. Tornamo-nos escravos do nada. E é em momentos extremos, que temos a oportunidade de enxergar que há um outro lado. Aquele que só conhece a busca pelo prazer superficial, torna-se dormente. Para reconhecer a capacidade alegradora do prazer, é preciso conhecer a dor, assim como refletiu Sócrates.

É na desaceleração que podemos observar que existe um mundo vasto a um palmo do nosso alcance. É na dor que há a chance de reconhecer que os prazeres da alma estão nos pequenos momentos, naquele simples carinho no fim de tarde, no caminhar sob o vento que perpassa seu rosto, no cheiro que exala do encontro da cebola com a manteiga quente, no abraço apertado e aconchegante antes de dormir.

Não acredito que magicamente o mundo se tornará um lugar melhor. Nem, ao contrário de Houellebecq, acredito que se tornará pior. O mundo continuará sendo o mundo. Com suas divergências e contingências. 

Pois a ordem precisa nascer do caos. É através do caos, é tomando consciência do nosso abismo, que surge a chance de encontrarmos a ordem interior. Não existe felicidade sem tristeza. A vida não está, nem de um lado, nem do outro do pêndulo. A vida é o pêndulo. A jornada do pêndulo. O seu movimento, o seu encostar em uma extremidade e outra. Porque no fim, é a falta de movimento que causa frustrações. No fim, são as badaladas que importam.

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