A conquista do voto feminino: os movimentos sufragistas pioneiros de Pernambuco

Reivindicando os direitos da mulher nordestina, elas estiveram à frente do sufrágio recifense
Martha de Hollanda e Edwiges de Sá Pereira, pioneiras do sufrágio feminino.

Martha de Hollanda e Edwiges de Sá Pereira: pioneiras do sufrágio em Recife.

O sufrágio feminino foi um movimento político que atingiu diversos países europeus e se espalhou pelo mundo no final do séc. XIX. O  movimento era composto por mulheres – e homens – que estavam na luta pelo direito de participar da vida política. Direito que era negado por uma sociedade patriarcal e machista que presumia que a mulher não tinha lugar no espaço cívico-político. 

No Brasil, o sufrágio veio embalado pelo fim da monarquia e pela proclamação da república. Os ideais modernos e a vida urbana permitiram que as mulheres da classe média começassem a ocupar espaços que antes não alcançavam. 

Em entrevista para o  Café Colombo, a graduada em História pela Universidade Federal do Paraná, Naiara Busulo,  falou um pouco desse cenário: “A luta pelo direito do voto feminino passou a ter maior relevância no Brasil no final da década de 10, ao longo de toda década de 20, até culminar na conquista do voto em 1932. Apesar de no séc. XIX, quando se estava discutindo a primeira constituição republicana, já tinha se colocado em pauta o direito ao voto pelas mulheres.”

Primeira página do estatuto da FBPF.

Primeira página do estatuto da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, em 1929. Fonte: Arquivo Nacional.

Busulo destaca dois nomes da luta sufragista brasileira, Leolinda Daltro, uma pioneira, e Bertha Lutz, um nome de destaque do movimento. “Leolinda era professora e foi criadora do Partido Republicano Feminino (PRF). Já na década de 1910, ela tentou uma candidatura mas teve seu pedido negado.” Logo depois, veio Bertha Lutz, que educada na França teve contato com o sufrágio inglês e trouxe suas ideias para o Brasil, de forma adaptada, já que as ações das sufragistas inglesas eram violentas demais para o cenário brasileiro da época. “A presença de Bertha na imprensa e o espaço que ela conseguiu junto a outros políticos homens, tornam ela a principal figura do sufrágio brasileiro, talvez a que tenha levado efetivamente a vitória da conquista ao voto no início da década de 30”, afirmou a paranaense.

O sufrágio pernambucano

Sendo Recife um polo econômico e político da época, a Veneza brasileira não ficaria para trás nos movimentos que levaram à conquista do voto feminino em 1932. Duas organizações vão se destacar no cenário feminista pernambucano do início da década de trinta, são elas a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino (FPPF), liderada por Edwiges de Sá Pereira, e a Cruzada Feminista Brasileira, sob a direção de Martha de Hollanda. Ambas mulheres ativas do âmbito intelectual brasileiro como escritoras e poetisas.

Edwiges de Sá. Ativista do sufrágio feminino pernambucano.

Edwiges de Sá Pereira. Jornalista, educadora, poetisa e ativista feminista. Fonte: Acervo da Fundaj.

Edwiges nasceu no município de Barreiros, em 1885. Filha de advogado, teve pleno acesso aos estudos, diferentemente da maioria das mulheres de sua época. Foi  jornalista, professora, poetisa e escritora. Na juventude, fundou com seu irmão, Eugênio de Sá Pereira, o jornal manuscrito “Eco Juvenil” e a revista literária “Azul e Ouro”. 

A FPPF foi criada em 1931, como uma filial da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino criada por Bertha Lutz, por um comunicado no periódico  A Notícia, Edwiges convocou as mulheres pernambucanas que se interessavam pelas causas feministas. 

As falas de Edwiges de Sá pelo movimento sempre incluíam um viés cristão e conservador. Contra o divórcio, defendia a feminilidade da mulher e era contrária a noção popular de que o feminismo a masculinizava, acreditando que esta devia ter “aspirações nobres dentro e fora do lar […] e para isso teria que se elevar a educação feminina”. Conforme Lopes cita Nascimento em seu artigo “É preciso votar! A luta das mulheres pelo direito ao voto em Recife”.

Martha de Hollanda. Ativista do sufrágio feminino pernambucano.

Martha de Hollanda, jornalista, poetisa e ativista pelo sufrágio feminino. Fonte: Enciclopédia do Nordeste.

Martha de Hollanda nasceu perto da capital, em Vitória de Santo Antão. Vinda de uma família tradicional, ela dedicou sua vida ao jornalismo, ao feminismo e à poesia, publicando um livro de poesias intitulado “Delírios do nada”, em 1930.

Com suas ideias revolucionárias e a favor do divórcio, Martha lutava pelo acesso da mulher à política e aos direitos civis. Sob sua liderança, a Cruzada Feminista caracterizou-se como um movimento de extrema importância para a conquista do sufrágio. Ela e a artista Celina Nigro foram as primeiras mulheres a alistarem-se para obter o direito ao voto em Pernambuco, pedido este que foi noticiado pelo periódico do Jornal do Recife. 

O sufrágio pernambucano começou nessas duas vertentes de pensamento, uma mais conservadora e uma mais radical, mas de igual importância e marco histórico. Apesar de algumas diferenças, ambas as organizações tinham forte cunho político e defendiam o acesso à educação da mulher nordestina. O movimento era composto por mulheres solteiras, casadas, professoras, comerciantes, ou seja, mulheres da classe média alta e da elite pernambucana.

É bom lembrar que a maioria das sufragistas brasileiras pertenciam à elite econômica e intelectual da época. Naiara Busulo critica essa postura em sua monografia sobre Maria Lacerda de Moura, uma feminista que se afastou do movimento sufragista pois percebeu que haviam falhas na iniciativa e passou a dar importância a outras pautas, como, por exemplo, o socialismo. Com ideias libertárias, chegou a morar em uma comunidade anarquista. 

“É importante entender que a luta pelo voto feminino no Brasil é extremamente elitista. Ele já começou com muitas pessoas não tendo esse direito, era um voto limitado de pessoas letradas. Quando a luta das mulheres entrou em pauta, não se discutia estender também para mulheres analfabetas ou homens analfabetos. Era exclusivamente a conquista do voto feminismo pelas mulheres da elite”, critica a historiadora. 

A Cruzada Feminista desempenhou uma das publicidades de maior relevância da época para o sufrágio feminino em Recife, com uma campanha dedicada às viúvas, em que mostraram apoio a essa parcela da população feminina, aproximando essas mulheres do movimento. Devido a grande repercussão, a ação teve reconhecimento da Secretaria de Viação, Agricultura, Indústria, Comércio e Obras Públicas do Estado de Pernambuco.

Convocação de apoio as mulheres viúvas pela Cruzada Feminista.

Convocação da Cruzada Feminista em auxílio das viúvas, publicada no Jornal Pequeno em 1932. Fonte: Fundação Joaquim Nabuco.

Os movimentos pelo sufrágio das mulheres não foram completamente aceitos na época, como até hoje não são. As sufragistas brasileiras enfrentaram críticas e hostilidades de conservadores que usavam argumentos religiosos e biológicos contra as mulheres que compunham o sufrágio, colocando até a menstruação como uma barreira para que as mulheres ocupassem cargos. 

Apesar das organizações feministas fazerem grande uso das rádios e jornais, a imprensa, ao mesmo tempo que dava visibilidade ao movimento, também o ridicularizava e distorcia seu significado. No entanto, em 24 de fevereiro de 1932, em meio a um regime originado de um golpe dado por Getúlio Vargas, as mulheres conquistaram o voto, enquanto junto ao restante da população, iam perdendo outros direitos. 

O movimento feminista enfrentou e ainda enfrenta, no Brasil e no mundo, entraves e bloqueios de pessoas retrógradas. A luta não parou até agora e o mais importante é que ela nunca pare. O enfrentamento pela igualdade de gênero numa sociedade que tem como fundação o elemento patriarcal machista é diária e se torna mais urgente de acordo com a cor e classe social. 

Ser mulher e estar no mundo é resistência. É se esforçar o dobro, o triplo, até não aguentar mais. Chamam-nos de louca, instável, sensível e paranoica. Nos querem mãe e esposa apenas e quando queremos isso também, nunca fazemos com excelência suficiente. Preferem que fiquemos quietas, castas e até concordam com a nossa luta, mas dizem: “não precisa de tudo isso”. Precisamos sim! Disso tudo e um pouco mais. 

A luta continua. Agarremo-nos umas às outras. 

Já que não é aconselhável ir às ruas para comemorar esse dia de muitas lutas e também, de muitas conquistas, o que acha de celebrá-lo com algumas dessas obras? Confira:

Enola Holmes 

Produzido pela talentosa Milly Bobby Brown, o longa disponível na Netflix, conta a aventura da irmã mais nova de Sherlock Holmes à procura da mãe. O filme se passa no cenário da luta sufragista inglesa, sendo super leve e divertido. Ainda assim, causa reflexões sobre o lugar da mulher na sociedade, na época e atualmente.  Pode ser encontrado na Netflix.

Trailer do Filme Enola Holmes, baseado na série de livros de Nancy Springer. Fonte: Netflix/Divulgação

Feministas: O que elas estavam pensando?

O documentário produzido pela Netflix aborda a segunda onda feminista, que teve seu inicio na década de 1960 e esbanjava mais pluralidade de classe, cores e sexualidade das mulheres. Ouvindo artistas que fizeram parte do movimento, como a atriz Jane Fonda e a fotógrafa Cynthia McAdams e destacando o impacto que essa nova fase deixou para a atual geração de mulheres. Mostrando-se um grande apanhado histórico, o documentário apresenta imagens e vídeos dos protestos e passeatas da época, demonstrando que muitas pautas que o movimento carrega hoje se originaram nessa época.  “Feministas: o que elas estavam pensando?” está disponível na Netflix.

Trailer do documentário “Feministas: O que elas estavam pensando?”. Fonte: Netflix/Divulgação.

As sufragistas 

Para quem curtiu Enola Holmes, vale a pena dar uma olhada em um filme mais sério. O filme de 2015 acompanha a luta pelo sufrágio na Inglaterra, os planos e as estratégias criadas pelas líderes dos movimentos a fim de ganhar notoriedade para a causa e a garantia de direitos. Sendo as sufragistas inglesas mais incisivas, o longa dá uma boa dimensão de tudo que teve que ser feito por essas mulheres e as atitudes radicais que precisaram tomar para serem ouvidas. O filme pode ser encontrado no Google Play e na Apple TV.

Trailer do longa “As Sufragistas”, de Sarah Gravon. Fonte: Universal Pictures/ Divulgação.

Esse texto teve como referência de nomes, data e história do movimento sufragista em Recife, o artigo escrito por Mirella Tuanny Ferreira Lopes, publicado no 18° Redor, – Rede Feminista Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisa sobre Mulher e Relações de Gênero

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