The Midnight Gospel e o poder da resiliência

The Midnight Gospel toca na religião e no existencialismo da mesma forma que reflete sobre como lidar com a perda e a morte

The Midnight Gospel, série de animação da Netflix. Foto: Reprodução

Alguns propositalmente a esquecem, outros a escondem por trás de antigos retratos e da história. Os filósofos, misteriosamente, embarcam numa longa viagem para entendê-la. Se algo sei é que neste século ainda podemos celebrar uma das últimas – e únicas – verdades absolutas: a morte a todos visita.

É, paradoxalmente, um mistério sem mistério, o inesperado esperado. O que pode ajudar a nos reconciliar com esse conceito? O que compreender enquanto aguardamos a derradeira hora? Questões como essa invadiam a minha mente enquanto eu assistia ao The Midnight Gospel. Um conceito simples, que talvez não se aguentaria por si só se as conversas de Duncan Trussell Family Hour que o suportam, desconstruindo com serenidade e lucidez alguns dos maiores medos da nossa existência, não fossem tão extraordinariamente impactantes.

A nova série de animação da Netflix mergulha em cenários apocalípticos e deixa-se guiar por reflexões existencialistas sobre algumas das maiores inquietações da existência humana. Entre os cenários mais apocalípticos, bizarros e coloridos, somos convidados a ouvir e viajar por reflexões sobre o significado da vida, para onde vamos depois dela e como fazer a estranha travessia pelo meio.

A obra leva a assinatura de Pendleton Ward, animador e argumentista responsável pelo clássico Adventure Time (2010), e do humorista Duncan Trussell: “Midnight Gospel” mescla uma narrativa surreal e fantástica com clipes do podcast The Duncan Trussell Family Hour, apresentada – como o próprio título indica – por Duncan Trussell, também protagonista do programa. Ambientada num planeta extraterrestre, Clancy (Duncan em inglês, e Fábio Lucindo em português brasileiro) é um apresentador do espaço-cast, um “simulador de universos” que usa para explorar mundos em diferentes estados de caos e fragmentação que, no fundo, é a mesma coisa que um podcast, mas “vai para o espaço todo”. 

Por todos os momentos, senti que contemplava uma experiência extremamente íntima, um momento de comunicação genuíno e espiritual. A própria narrativa não faz questão de separar claramente os limites entre Duncan e Clancy, gerando muitos significados ao diluir os limites entre a realidade do desenho e a nossa. Em um dado momento, a mãe de Duncan/Clancy é entrevistada, e essas fronteiras ficam, como nunca, ainda mais turvas. No episódio 8, em um diálogo real entre Trussell e sua mãe (psicóloga que morreu em 2013), ela afirma: “Chorar quando precisar e encarar a morte, mesmo que tenha medo, não vai te machucar. Veja o que ela tem a ensinar. Ela é uma ótima professora, e não cobra nada”.

A mortalidade é uma sombra que fica pairando sobre as nossas cabeças a vida inteira, dançando entre pesadelos, sonhos, e lembranças. Transformamo-nos mesmo sabendo do destino final, convertemos-nos em pessoas diferentes a cada dia.

Assim como a Árvore da Vida da Cabala – símbolo que tem destaque no episódio 7 – e a tríade hindu, formada pelos deuses Vishnu, Shiva e Brahma, as informações do desenho podem se dividir em três categorias principais: vida, morte e renascimento. Um dos paradoxos mais legais da existência é que essas três forças (da preservação, da destruição, e da regeneração) funcionam no Universo simultaneamente, por meio de uma dança incrível.

A animação trata de assuntos como meditação e mindfulness – o aqui e o agora. Se há uma coisa que esse fenômeno invisível do novo coronavírus deixou claro é que nós não controlamos nada. Não controlávamos antes e não controlamos agora. Temos, apenas a ilusão de controle. Isso é algo evidente na série: é preciso um exercício de contemplação e introspecção. O personagem Clancy descobre que a única forma de interromper o ciclo de sofrimento de morte e vida é assumindo a nossa total falta de controle e aceitando a situação como ela é.

The Midnight Gospel toca na religião e no existencialismo da mesma forma que reflete sobre como lidar com a perda e a morte.
Reprodução: Netflix.

Todos estamos tendo experiências de luto, não só pelas pessoas que perdemos para a Covid-19. O luto da pandemia envolve fatores além da perda de pessoas queridas. É a perda do nosso mundo normal, de atividades, de encontros.

É difícil entender exatamente o que se sente ao ver as mortes em série provocadas pelo Coronavírus. Em geral, elas nos deixam comovidos e nos fazem pensar na finitude, na fragilidade da vida, nos nossos planos interrompidos e no mundo pós-pandemia, que é desconhecido.

O que talvez possamos aprender com a pandemia e com a ameaça da morte é transformá-la em uma aliada, aceitando o que passou e nos responsabilizando pelo porvir. É possível que, depois da pandemia, as pessoas fiquem com mais vontade de viver. Não se trata de uma resignação com a situação atual, mas uma mistura de indignação e esperança. “The Midnight Gospel” oferece ferramentas para lidar com questões existenciais antes trazidas por Sócrates, Epicuro, Montaigne, Schopenhauer e Nietzsche. Apesar de recorrente, a morte não é tratada da mesma forma por eles e apresenta variações de correntes e de pensamentos. De qualquer maneira, buscar entender essas teorias pode nos ajudar a ter uma relação de clareza e, obviamente, de menos sofrimento. A maioria acredita que a filosofia é capaz de tornar a nossa aceitação da morte algo mais branda, afinal, essa é uma das poucas certezas que temos e algo que nos torna iguais.

Os convidados dos episódios têm falas maravilhosas e oferecem métodos pragmáticos para atravessar o sofrimento e encontrar um lugar estável, e que não seja baseado nos noticiários. Essa forma diferente de entender o fim da existência pode ser útil em um momento no qual William Bonner nos lembra disso toda noite. 

O importante é cultivar a esperança, pois a desorganização interior provocada pela crise pode dar lugar a um novo equilíbrio. É necessário fazer uma reflexão profunda. Vai sobreviver a tudo isso quem tiver a capacidade de ressignificar seus sentimentos e relações, quem tiver capacidade de doar amor, de perdoar, de esquecer coisas que não têm muito sentido, de deixar o orgulho e passar a dar valor às pessoas. Procuramos conforto na ideia de que, mesmo perante o desespero, mesmo com a mutação de um sinistro novo mundo e a decadência do velho, sobreviverá o amor.

No entanto, os momentos verdadeiramente gratificantes de “The Midnight Gospel” são aqueles que dão lugar à vulnerabilidade, a exemplo da entrevista que Duncan Trussell – transformando o último episódio em sua contribuição principal – fez com sua mãe, Deneen Fendig, pouco antes de seu falecimento vítima de câncer de mama. De repente, o excesso de adrenalina dos universos a um passo do colapso sai de cena e é substituído pela tranquilidade de um sonho. Num leve mundo de ursinhos, um Clancy bebê é embalado por Deneen, que o leva num passeio pelas memórias que criaram juntos.

Os dois personagens envelhecem gradualmente, até Clancy ganhar o cabelo e a barba de Duncan e, antes de se metamorfosearem, adquirirem a forma de pequenos planetas numa rota de desintegração, lançam uma questão reflexiva: quando o dia de dizer adeus bate à porta para quem amamos, como é que se cuida de um coração partido? Para uma série com tanto a dizer sobre tantos assuntos diferentes, a resposta é fantasticamente tocante em sua simplicidade. “Você chora! Você chora…”

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