Três escritoras nordestinas esquecidas na literatura

Mulheres que registraram as marcas de movimentos sociais e políticos em suas obras

Em comemoração ao Dia Nacional do Livro, celebrado em 29 de outubro, conheça (ou relembre) escritoras do Nordeste que foram ocultadas da tradição literária, uma vez que a escrita feminina foi cedida ao campo de invisibilidade pelo cânone de caráter masculino da literatura. Com suas jornadas engajadas em movimentos sociopolíticos, Dionísia Gonçalves Pinto, Maria Firmina dos Reis e Anilda Leão tratavam sobre temáticas que abordavam tabus e a luta por direitos — sejam eles das mulheres, do negros ou dos indigenas. 

“Pois não só porque mulheres escritoras são esquecidas; são esquecidas sobretudo as mais atuantes, as feministas, em uma palavra”. 

Zahidé Muzart
Dionísia Gonçalves Pinto
Retrato de Dionísia Gongalves Pinto. Foto: Divulgação.

A potiguar Dionísia Gonçalves Pinto, nasceu em 12 de outubro de 1810, na antiga cidade de Papari. Como escritora, carregou consigo o pseudônimo Nísia Floresta Brasileira Augusta. Obstinada e defensora dos direitos da mulher, escreveu aos 22 anos seu primeiro livro “Direitos das mulheres e injustiças dos homens”. 

Até seu falecimento em 1887, publicou outras 14 obras que, além de evidenciar o feminismo como temática principal, destacava os direitos dos escravos e dos indígenas. Entre seus escritos de maior destaque estão “Conselhos à minha filha” (1842), “Daciz ou A jovem completa “(1847), “A lágrima de um Caeté” (1849) e “Opúsculo humanitário” (1853).

“A esperança de que, nas gerações futuras do Brasil, ela (a mulher) assumirá a posição que lhe compete nos pode somente consolar de sua sorte presente.”

Opúsculo Humanitário

Considerada a primeira educadora feminista do Brasil, Nísia fundou escolas para meninas no Recife, Porto Alegre e Rio de Janeiro, onde recebeu destaque por ministrar as disciplinas de gramática, português, francês, italiano, ciências naturais e sociais, matemática, música e dança e, com isso, alvo de ataques e críticas à la mode machista. 

Maria Firmina dos Reis
Pintura retra Maria Firmina a partir de descrição feita por pessoas que conheciam a autora. Foto: André Valente / BBC.

Nascida em 11 de março de 1822, em São Luiz do Maranhão, Maria Firmina dos Reis foi a primeira escritora negra e romancista do Brasil. Utilizou a literatura como instrumento para denunciar práticas escravistas, e através do pseudônimo de “Uma Maranhense” publicou “Úrsula” (1859), seu romance abolicionista. 

“Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor. (…) Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados”

Úrsula

Se destacou como a primeira mulher a passar em um concurso público no Maranhão. Atuou profissionalmente como professora, e em 1880 fundou a primeira escola mista (para meninos e meninas) gratuita no Brasil, que na época foi motivo de escândalo para a sociedade. 

Responsável por inaugurar o que hoje conhecemos como literatura afro-brasileira, ela também publicou contos, histórias, ensaios, poesias, em revistas e jornais locais. A maioria dos seus manuscritos não foram editados e se perderam com o passar dos séculos. Entre as obras de sua autoria é possível citar “Gupeva” (1861), Cantos à beira-mar (1871) e A escrava (1887). 

Firmina morreu em 11 de novembro de 1917, na cidade de Guimarães (MA), onde morava  na casa de uma ex-escrava.

Anilda Leão
Foto: Divulgação.

Anilda Leão nasceu Maceió, Alagoas, no dia 15 de julho de 1923. Aos 13 anos, publicou seu primeiro poema com o tema criança abandonada. Na escola, era tida como rebelde, característica registrada na personalidade da artista que, ao longo de sua história, passou a escrever sobre tabus como prostituição, virgindade e homossexualidade — pautas ainda discutidas na contemporaneidade.

No ano de 1950, após participar de um evento de fomento ao Progresso Feminino, passou a frequentar ativamente na Federação Alagoana, e mais tarde se tornou presidenta da instituição. Em junho de 1963, representou a Federação no Congresso Mundial de Mulheres em Moscou. Enquanto viajava, um boato circulava pelas ditas bocas da população de Maceió. “Anilda? Foi presa! Rasparam-lhe a cabeça”. A falsa notícia rendeu a Anilda horas de risos que, após o incidente, publicou o poema “Vou abrir as pernas para o mundo. Nove meses depois parirei a humanidade”.

Se casou aos 30 anos de idade com o poeta e escritor Carlos Moliterno. O casamento foi motivo de choque para seus parentes, uma vez que Carlos  separou de sua ex-esposa em uma época em que não havia a lei do divórcio. 

Em 1962, incentivada pelo marido, publicou seu primeiro livro de poemas “Chão de Pedras”. Nos anos 70, com a coletânea de contos “Riacho Seco”, conquistou o Prêmio Graciliano Ramos da Academia Alagoana de Letras. No entanto, a obra só foi publicada em 1980. Publicou também as poesias “Chuvas de Verão”, em 1974; “Poemas Marcados”, em 1978 e “Círculo Mágico (e outros nem tanto)”, em 1993.

Ainda na década de 1970, realizou seu primeiro trabalho como atriz no seriado “Lampião e Maria Bonita e Órfãos da Terra”. Também atuou nos filmes “Bye bye Brasil” (1980), “Memórias do Cárcere” (1984) e “Deus é brasileiro” (2002).

A partir dos seus contos, poesias, crônicas e artigos, se tornou colaboradora do Jornal de Alagoas e Gazeta de Alagoas, além de escrever para as revistas Caetés e Mocidade. Quando faleceu, em 2012, o escritor brasileiro Benedito Ramos a definiu como “única criatura no mundo que sempre determinou a idade que desejava ter. Sua disposição para encarar desafios é sua principal característica. A escritora e poetisa sempre viveu intensamente tudo o que fez”.

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