Tulio Carella, o Recife e a Memória Retecida

Em coluna externa, o pesquisador Moacir Japearson, comenta Roteiro Recifense e Orgia, Diário Primeiro, duas das obras do escritor argentino Tulio Carella, que atentas ao Brasil e suas nuances, desconhecem limites entre ficção e não-ficção e reverberam até os nossos dias.

Montagem da companhia Teatro do Insólito do texto “Orgia: Diário Primeiro”, de Tulio Carella, Foto: Reprodução.

Talvez as águas do Capibaribe que receberam Italo Tulio Carella, professor de teatro recém chegado na cidade, lembrassem as águas do Rio da Prata, o mesmo que banhava a sua Buenos Aires quando decidiu aceitar o convite de Hermilo Borba Filho para dar aulas na Escola de Belas Artes, da então Universidade do Recife. Não se sabe o que ele trouxe em sua bagagem, mas se presume o que levou quando teve que sair daquela Recife efervescente cultural e intelectualmente do começo dos anos 1960. Anos depois, em 1965 ele lançaria um livro de poesia, Roteiro Recifense e, em 1968, Orgia, Diário Primeiro. Essas duas obras são unidas por laços de uma memória que é afetiva mas também sexual, e que se manifesta ao leitor de formas distintas: com tintas mais claras em Orgia e talvez mais camaleônica em Roteiro Recifense.

Tulio Carella já era um intelectual conhecido na Argentina e o propósito do convite de Hermilo Borba Filho se deu, provavelmente, para uma oxigenação no curso de teatro e ele caiu bem para essa  finalidade em um período no qual o Movimento de Cultura Popular, que teve no teatro um braço forte, estava começando a dar seus primeiros passos. Mas se por um lado os ecos dessa efervescência cultural se ouviam claramente em Pernambuco e em parte do mundo ocidental, existia um certo movimento de fechamento político e moral na latino-américa e Tulio Carella foi preso e torturado pelo Exército Brasileiro em 1961, por ter sido confundido com um traficante de armas para as Ligas Camponesas. Esse incidente foi o responsável pelo convite a sair da Universidade e do país, para o qual ele nunca conseguiu voltar até a sua morte, em 1977. Mas o fato maior é que ele guardava em seu apartamento, invadido enquanto estava preso, cadernos que eram os seus diários. O conteúdo destes cadernos descobertos mudou o rumo de sua estadia brasileira e provavelmente da sua vida. Anos depois esses cadernos, que provavelmente não mais existem, desembocaram em Orgia, diário primeiro, obra editada em 1968 por José Alvaro Editor e reeditada em 2011, pela Opera Prima.

Essas duas obras que Tulio Carella escreveu posteriormente à sua saída do Brasil e que são ligadas intrinsecamente a essa estadia recifense trazem uma memória afetiva que vem principalmente de um retroagir do autor, uma viagem para trás nas experiências que levou da cidade. Essa memória afetiva é também sexual e política, na medida em que ele assume a sua sexualidade para uma América Latina que se fechava moral e politicamente, e as duas obras representam muito disso.

Capa de “Orgia: Os diários de Tulio Carella”. Edição de 2011. Foto: Reprodução.

Roteiro Recifense se coloca como uma memória afetiva, um risco de saudade da cidade que o autor deixou para trás, e como ele mesmo apresenta no seu prefácio, são “Poemas escritos em Buenos Aires. Versos de pura nostalgia pernambucana, dedicado a los amigos Buenos y malos, ricos y pobres de la ciudad de Recife, rosa oscura del nordeste brasileño, donde el mar y los relojes tienen horas resueñas para el poeta.” Mas a obra é mais que isso. A maioria dos poemas trazem inscrita uma memória muitas vezes sexual,  sobretudo homoerótica, embora essa percepção tenha passado impune à certa parte da crítica jornalística da época, que a entendeu como de memória de alguém que sente saudades da cidade, e se Roteiro Recifense antecede Orgia cronologicamente em sua edição,  faz muito sentido enxergar a primeira como um abre alas da segunda, embora sejam obras estruturadas de formas diferentes: uma é uma seleção de poemas e a outra é uma escrita de si estruturada como romance. Mas em ambas há uma certa epifania de corpos, essencialmente masculinos, apolíneos e negros. E foram os negros naquele microcosmo do centro da cidade que inebriaram Tulio Carella, muito mais que a própria cidade e o seu grande salão intelectual. Vê-se isso na maioria dos poemas da seleção, e as imagens trazidas por eles são muito parecidas, há quase sempre algo que remete ao negro, como em 

LUMEM

Estás alegre porque eres

la sombra del sol.

Detrás de tu piel morena

rebrillan luces de oro

fino, enamorado,

en tersa combustión.

E em

MARINEROS

Carne de mar oscura

carne de marineros caboclos:

el agua salada.

tiene tantos secretos

como el agua dulce.

Con cuerpo inesperado

el caboclo cruza el mar

ardiente del verano

y traga a sorbos la negrura.

Em Orgia a memória é sobretudo homoerótica, e os relatos dos encontros intempestivos com os homens do centro da cidade são uma referência durante todo o texto. Essa é uma obra contundente de Tulio Carella, lançada dentro de uma coletânea erótica organizada por Hermilo Borba Filho. Nela o autor assume seus numerosos flertes e encontros com os homens, principalmente negros, e, embora as percepções sobre a cidade também estejam nela, é sobre isso que fala a obra, na qual está explícito que o que lhe “atrai no Recife é a atmosfera mortal, ou melhor imoral. Isto é a África com as vantagens do Ocidente. Vantagens que terei de abandonar um dia, como uma roupa velha.” E de fato teve que abandonar, com um pedido formal de saída da Universidade do Recife e em seguida do país, muito pelo conteúdo que encontraram nos seus cadernos-diários. Essa memória homoerótica foi transposta de alguma forma para Orgia, uma obra que amalgama relatos de uma escrita de si com alguns elementos de ficcionalidade, sem se saber ao certo onde um começa e o outro termina. 

Para Tulio Carella “o diário é isto que anota o bom e o mau amor, as tarefas cotidianas, as ambições secretas”, e foi em Orgia onde ele anotou essas impressões e relatos, usando artifícios estilísticos como mudanças na fonte tipográfica e na voz do narrador que servem para imprimir essa memória, que está principalmente em relatos como esse: “Na sombra da rua vejo um marinheiro negro, de braços compridos e mandíbula pronunciada. Parece esperar alguém e se desinteressa de mim depois de um olhar. Aproveito o fato de ele apoiar-se na parede para passar roçando-o e deixar que minha mão caia em sua braguilha.” Essa memória, conforme é retecida no texto, serviu para contestar uma ordem social vigente.

Parte dessa passagem do autor pela cidade pode ser resgatada por uma pesquisa historiográfica nos arquivos públicos nacionais brasileiros, mas muito dela provavelmente foi apagada por familiares e pela ditadura argentina. Nem Roteiro Recifense nem Orgia foram editadas no país natal do escritor até esses dias, e não constam dos catálogos eletrônicos das duas principais bibliotecas públicas do seu país natal, a Biblioteca Nacional Argentina e a Biblioteca do Congresso Argentino (no caso de Orgia, pois há um exemplar para consulta de Roteiro Recifense na Biblioteca do Congresso Nacional). Portanto, Tulio Carella reteceu a memória de sua passagem pelo Recife nessas duas obras e apesar dos silenciamentos que sofreu, elas ainda reverberam nos nossos dias como uma resposta, transgressiva e política, à violência sofrida nessa sua estadia em solo pernambucano. 

Sobre o autor: Moacir Japearson Albuquerque Mendonça. Cirurgião-Dentista licenciado em Letras Português-Inglês e mestrando em Estudos Literários pelo PPGLL-UFAL.

Referências: 

CARELLA, T. Orgia. Diário primeiro. Rio de Janeiro: José Alvaro Editor, 1968.

CARELLA, T. Orgia: os diários de Tulio Carella, Recife, 1960.  São Paulo: Opera Prima, 2011.

______. Roteiro Recifense. Recife: Imprensa Universitária, 1965.

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